26.1.11

O BARBA-AZUL

O marido chegou de volta exatamente na manhã do dia seguinte e entrou no castelo já procurando pela esposa.
— E então, como foram as coisas enquanto eu estive fora?
— Tudo correu bem, senhor.
— Como estão minhas despensas? — trovejou o marido.
— Muito bem, senhor.
— E como estão meus depósitos de dinheiro? — rosnou ele.
— Os depósitos de dinheiro também estão bem, senhor.
— Então, tudo está certo, esposa?
— É, tudo está certo.
— Bem — sussurrou ele —, então é melhor devolver minhas chaves.
Com um relancear de olhos, ele percebeu a falta de uma chave.
— Onde está a menorzinha?
— Eu... eu a perdi. É, eu a perdi. Estava passeando a cavalo, o chaveiro caiu e eu devo ter perdido uma chave.
— O que você fez com ela, mulher?
— Não... não me lembro.
— Não minta para mim! Diga-me o que fez com aquela chave!
Ele tocou seu rosto como se fosse lhe fazer um carinho, mas em vez disso a segurou pelos cabelos.
— Sua traidora! — rosnou, jogando-a ao chão. — Você entrou naquele quarto, não entrou?
Ele abriu o guarda-roupa com brutalidade e a pequena chave na prateleira de cima havia sangrado, manchando de vermelho todos os belos vestidos de seda que estavam pendurados.
— Chegou a sua vez, minha querida — berrou ele, arrastando-a pelo corredor e pelo porão adentro até pararem diante da terrível porta. 

O Barba-azul apenas olhou para a porta com seus olhos enfurecidos, e ela se abriu para ele. Ali jaziam os esqueletos de todas as suas esposas anteriores.
— Vai ser agora!!! — rugiu ele, mas ela se agarrou ao batente da porta sem largar, implorando por clemência.
— Por favor, permita que eu me acalme e me prepare para a morte. Conceda-me quinze minutos antes de me tirar a vida para que eu possa me reconciliar com Deus.
— Está bem — rosnou ele. — Você tem seus quinze minutos, mas prepare-se.
A esposa correu escada acima até seus aposentos e determinou que suas irmãs fossem para as muradas do castelo. Ajoelhou-se para rezar, mas, em vez de rezar, gritou para as irmãs.
— Irmãs, irmãs, vocês estão vendo a chegada dos nossos irmãos?
— Não vemos nada, nada na planície nua. 

A cada instante ela gritava para as muradas.
— Irmãs, irmãs, estão vendo nossos irmãos chegando?
— Vemos um redemoinho, talvez um redemoinho de areia bem longe.
Enquanto isso, o Barba-azul esbravejava para que sua esposa descesse até o porão para ser decapitada.
— Irmãs, irmãs! Estão vendo nossos irmãos chegando? — gritou ela mais uma vez.
O Barba-azul berrou novamente pela esposa e veio subindo a escada de pedra com passos pesados.
— Estamos, estamos vendo nossos irmãos — exclamaram as irmãs. — Eles estão aqui e acabam de entrar no castelo.
O Barba-azul vinha pelo corredor na direção dos aposentos da esposa.
— Vim apanhá-la — gritou ele. Suas passadas eram pesadas; as pedras no piso se soltavam; a areia da argamassa caía esfarinhada no chão.
No instante em que o Barba-azul entrou nos aposentos com as mãos esticadas para agarrá-la, seus irmãos chegaram galopando pelo corredor do castelo ainda montados, entrando assim no quarto. Ali eles encurralaram o Barba-azul fazendo com que saísse até a balaustrada. E ali mesmo, com suas espadas, avançaram contra ele, golpeando e cortando, fustigando e retalhando, até derrubá-lo ao chão, matando-o afinal e deixando para os abutres o que sobrou dele.
 
(Extraído do livro: Mulheres que correm com os lobos).

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