26.1.11

O BÚFALO


A nudez dos macacos. O mundo que não via perigo em ser nu. Ela mataria a nudez dos macacos. Um macaco também a olhou segurando as grades, os braços descarnados abertos em crucifixo, o peito pelado exposto sem orgulho. Mas não era no peito que ela mataria, era entre os olhos do macaco que ela mataria, era entre aqueles olhos que a olhavam sem pestanejar. De repente a mulher desviou o rosto: é que os olhos do macaco tinham um véu branco gelatinoso cobrindo a pupila, nos olhos a doçura da doença, era um macaco velho — a mulher desviou o rosto, trancando entre os dentes um sentimento que ela não viera buscar, apressou os passos, ainda voltou a cabeça espantada para o macaco de braços abertos: ele continuava a olhar para a frente. "Oh não, não isso", pensou. E enquanto fugia, disse: "Deus, me ensine somente a odiar."
"Eu te odeio", disse ela para um homem cujo crime único era o de não amá-la. "Eu te odeio", disse muito apressada. Mas não sabia sequer como se fazia. Como cavar na terra até encontrar a água negra, como abrir passagem na terra dura e chegar jamais a si mesma? Andou pelo Jardim Zoológico entre mães e crianças. Mas o elefante suportava o próprio peso. Aquele elefante inteiro a quem fora dado com uma simples pata esmagar. Mas que não esmagava. Aquela potência que no entanto se deixaria docilmente conduzir a um circo, elefante de crianças. E os olhos, numa bondade de velho, presos dentro da grande carne herdada. O elefante oriental. Também a primavera oriental, e tudo nascendo, tudo escorrendo pelo riacho.
A mulher então experimentou o camelo. O camelo em trapos, corcunda, mastigando a si próprio, entregue ao processo de conhecer a comida. Ela se sentiu fraca e cansada, há dois dias mal comia. Os grandes cílios empoeirados do camelo sobre olhos que se tinham dedicado à paciência de um artesanato interno. A paciência, a paciência, a paciência, só isso ela encontrava na primavera ao vento. Lágrimas encheram os olhos da mulher, lágrimas que não correram, presas dentro da paciência de sua carne herdada. Somente o cheiro de poeira do camelo vinha de encontro ao que ela viera: ao ódio seco, não a lágrimas. Aproximou-se das barras do cercado, aspirou o pó daquele tapete velho onde sangue cinzento circulava, procurou a tepidez impura, o prazer percorreu suas costas até o mal-estar, mas não ainda o mal-estar que ela viera buscar. No estômago contraiu-se em cólica de fome a vontade de matar. Mas não o camelo de estopa. "Oh Deus, quem será meu par neste mundo?"

(Extraído do conto: O Búfalo, de Clarice Lispector) 

O LOBO E O HOMEM

Certa vez uma rapoza estava conversando com um lobo sobre a força dos homens.
- Nenhum animal - disse ela - pode resistir ao homem, por isso temos sido obrigados a usar a astúcia para nos defender.
- Mesmo assim, se algum dia deparar com algum homem, eu o atacarei - respondeu o lobo.
- Bem, posso ajudá-lo a fazer isso - disse a raposa. - Venha me procurar logo pela manhã e lhe mostrarei um homem!
O lobo acordou cedo e a raposa o levou a uma estrada na floresta, frequentada diariamente por caçadores.
Primeiro passou um velho soldado dispensado pelo exército.
- Isso é um homem? - perguntou o lobo.
- Não - respondeu a raposa. - Foi um homem.
Depois, apareceu um menino a caminho da escola.
- Isso é um homem?
- Não; vai ser um homem.
Finalmente o caçador apareceu, com a espingarda às costas e o facão de caça na cintura. A raposa disse ao lobo:
- Olha! Aí vem um homem. Você pode atacá-lo, mas eu vou indo para a minha toca!
O lobo atacou o homem que ao vê-lo pensou: "Que pena que não carreguei minha espingarda com munição de verdade", e disparou uma carga de chumbinhos no focinho do lobo. A fera fez uma careta, mas não ia se assustar por tão pouco e tornou a atacá-lo. O caçador disparou uma segunda carga. O lobo engoliu a dor e tornou a investir contra ele; mas o homem puxou seu reluzente facão de caça e golpeou a torto e a direito, e o lobo, pingando sangue, correu a procurar a raposa.
- Então, irmão lobo - disse a raposa -, como foi o seu encontro com o homem?
- Coitado de mim! - lamentou o lobo. - Nunca pensei que a força do homem fosse o que é. Primeiro ele tirou um pau do ombro, soprou dentro e bateu uma coisa na minha cara, que ardeu demais. Depois tornou a soprar e a coisa disparou raios de granizo. Por fim puxou do corpo uma costela reluzente e me golpeou até me deixar mais morto do que vivo.
- Está vendo agora - disse a raposa - como você é exibido? Machadinha atirada ao ar não torna a voltar.

(Extraído do livro: Contos dos Irmãos Grimm).

O CARREGADOR E AS DAMAS

Enfim, com a mão pousada sobre a parte mais quente do seu corpo, perguntou ao jovem: "Oh querido amo, o que é isto?". 
"É seu escrínio secreto", respondeu o carregador; "Oh! Não tem vergonha de falar desse modo?", repreendeu ela, batendo-lhe na nuca, suavemente para castiga-lo.
"Então é sua greta?", corrigiu-se ele. 
Desta vez foi a vizinha que lhe aplicou um leve tapa e emitiu um grito de horror: "Oh! Como é feia esta palavra!"; "Já sei! É seu almofariz...", emendou o carregador. 
A terceira martelou tão fortemente seu peito que o derrubou de costas. "Que indecência!", exclamou ela. 
"Ah! É sua vespa", tentou mais uma vez. Mas a bela jovem nua voltou à carga, cumulando-o de tapas: "Oh, não, não!"; "Então é outra coisa: o abrigo compassivo... a cúpula aprazível... a espera do galinho..."; "Não, não e não!"
A cada resposta do carregador, uma das donzelas empenhava-se, por seu turno, em agredi-lo gritando: "Não, não é assim que se chama...".
E tanto lhe bateram que acabou por sentir as costas alquebradas, os olhos avermelhados e a nuca dolorida.Por fim, perdendo a paciência, perguntou: "Ó irmãzinha, qual é, pois o nome disto?";
"A planta aromática das pontes!"

(Extraído do livro: As Mil e Uma Noites).

LOBOS INTERNOS

Um velho Avô disse a seu neto, que veio a ele com raiva de um amigo que lhe havia feito uma injustiça:
"Deixe-me contar-lhe uma história.
Eu mesmo, algumas vezes, senti grande ódio àqueles que 'aprontaram' tanto,
sem qualquer arrependimento daquilo que fizeram.
Todavia, o ódio corrói você, mas não fere seu inimigo.
É o mesmo que tomar veneno, desejando que seu inimigo morra.
Lutei muitas vezes contra estes sentimentos".
E ele continuou: "É como se existissem dois lobos dentro de mim.
Um deles é bom e não magoa.   Ele vive em harmonia com todos ao redor dele e não se ofende quando não se teve intenção de ofender.
Ele só lutará quando for certo fazer isto, e da maneira correta.
Mas, o outro lobo, ah! Este é cheio de raiva.  Mesmo as pequeninas coisas o lançam num ataque de ira!
Ele briga com todos, o tempo todo, sem qualquer motivo.
Ele não pode pensar porque sua raiva e seu ódio são muito grandes.
É uma raiva inútil, pois sua raiva não irá mudar coisa alguma!
Algumas vezes é difícil de conviver com estes dois lobos dentro de mim, pois
ambos tentam dominar meu espírito".
O garoto olhou intensamente nos olhos de seu Avô e perguntou:
"Qual deles vence, Vovô?"
O Avô sorriu e respondeu baixinho:
"Aquele que eu alimento mais freqüentemente".

(The Wolves Within - Autor Desconhecido / Tradução:  Sílvio Darci da Silva)

O BARBA-AZUL

O marido chegou de volta exatamente na manhã do dia seguinte e entrou no castelo já procurando pela esposa.
— E então, como foram as coisas enquanto eu estive fora?
— Tudo correu bem, senhor.
— Como estão minhas despensas? — trovejou o marido.
— Muito bem, senhor.
— E como estão meus depósitos de dinheiro? — rosnou ele.
— Os depósitos de dinheiro também estão bem, senhor.
— Então, tudo está certo, esposa?
— É, tudo está certo.
— Bem — sussurrou ele —, então é melhor devolver minhas chaves.
Com um relancear de olhos, ele percebeu a falta de uma chave.
— Onde está a menorzinha?
— Eu... eu a perdi. É, eu a perdi. Estava passeando a cavalo, o chaveiro caiu e eu devo ter perdido uma chave.
— O que você fez com ela, mulher?
— Não... não me lembro.
— Não minta para mim! Diga-me o que fez com aquela chave!
Ele tocou seu rosto como se fosse lhe fazer um carinho, mas em vez disso a segurou pelos cabelos.
— Sua traidora! — rosnou, jogando-a ao chão. — Você entrou naquele quarto, não entrou?
Ele abriu o guarda-roupa com brutalidade e a pequena chave na prateleira de cima havia sangrado, manchando de vermelho todos os belos vestidos de seda que estavam pendurados.
— Chegou a sua vez, minha querida — berrou ele, arrastando-a pelo corredor e pelo porão adentro até pararem diante da terrível porta. 

O Barba-azul apenas olhou para a porta com seus olhos enfurecidos, e ela se abriu para ele. Ali jaziam os esqueletos de todas as suas esposas anteriores.
— Vai ser agora!!! — rugiu ele, mas ela se agarrou ao batente da porta sem largar, implorando por clemência.
— Por favor, permita que eu me acalme e me prepare para a morte. Conceda-me quinze minutos antes de me tirar a vida para que eu possa me reconciliar com Deus.
— Está bem — rosnou ele. — Você tem seus quinze minutos, mas prepare-se.
A esposa correu escada acima até seus aposentos e determinou que suas irmãs fossem para as muradas do castelo. Ajoelhou-se para rezar, mas, em vez de rezar, gritou para as irmãs.
— Irmãs, irmãs, vocês estão vendo a chegada dos nossos irmãos?
— Não vemos nada, nada na planície nua. 

A cada instante ela gritava para as muradas.
— Irmãs, irmãs, estão vendo nossos irmãos chegando?
— Vemos um redemoinho, talvez um redemoinho de areia bem longe.
Enquanto isso, o Barba-azul esbravejava para que sua esposa descesse até o porão para ser decapitada.
— Irmãs, irmãs! Estão vendo nossos irmãos chegando? — gritou ela mais uma vez.
O Barba-azul berrou novamente pela esposa e veio subindo a escada de pedra com passos pesados.
— Estamos, estamos vendo nossos irmãos — exclamaram as irmãs. — Eles estão aqui e acabam de entrar no castelo.
O Barba-azul vinha pelo corredor na direção dos aposentos da esposa.
— Vim apanhá-la — gritou ele. Suas passadas eram pesadas; as pedras no piso se soltavam; a areia da argamassa caía esfarinhada no chão.
No instante em que o Barba-azul entrou nos aposentos com as mãos esticadas para agarrá-la, seus irmãos chegaram galopando pelo corredor do castelo ainda montados, entrando assim no quarto. Ali eles encurralaram o Barba-azul fazendo com que saísse até a balaustrada. E ali mesmo, com suas espadas, avançaram contra ele, golpeando e cortando, fustigando e retalhando, até derrubá-lo ao chão, matando-o afinal e deixando para os abutres o que sobrou dele.
 
(Extraído do livro: Mulheres que correm com os lobos).